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  1. 13 pessoas

    Monday, February 06, 2012

    Será que este blog reviverá?

    Voltará das trevas?

    Será que eu tenho idade para ainda ter um blog?

    Perguntas que serão respondidas nos próximos meses. Mas devo dizer, antes de qualquer coisa, que o verdadeiro motivo pelo qual resolvi fazer uma faxina aqui foi porque eu, limpando os meus feeds no Google Reader semana passada, fui dar um unsubscribe no meu próprio blog (afinal de contas, estava virando peso morto), quando as estatísticas me mostraram que, além de mim, 13 outras pessoas AINDA assinam o Atrás do arco-íris. Seriamente tocada com a fidelidade destas 13 pessoas e um pouco receosa com a idéia de eventuais stalkers, decidi que talvez eu tenha assunto para postar. Talvez.

    Vocês, 13 pessoas (dentre estas, imagino, 5 nem lembram que tem conta no Google Reader), podem voltar a acreditar!

    P.S.: O irônico vai ser o número diminuir depois deste post.

    P.S.2: Para provar que não estou mentindo, fiz um print da tela do Google Reader.


  2. Eu amo escrever

    Friday, August 26, 2011

    Eu sei que nao posto ha um milhao de anos aqui no blog, mas este post é importante: preciso da ajuda de voces (se é que ainda tem alguém ai).

    Inscrevi o conto "See you later, alligator" em um concurso e preciso de votos: http://www.li3.com.br/clientes/euamoescrever/conto.php?see-you-later-alligator&p=4e54c53f202e8

    O conto ja é um velho conhecido dos leitores deste blog. Passe la e votem, é so um clique!

    P.S.: Desculpem a ausencia de acentos, estou usando um computador estrangeiro.

  3. No, Woman, No cry

    Friday, September 18, 2009

    Este texto é velhíssimo. Acho que deve ter uns 4 anos. Escrevi numa época em que eu era uma pessoa muito mais sensata e, hoje em dia, provavelmente, o escreveria de uma forma diferente e com um pouco mais de sofisticação. Em todo caso, republico agora dedicado inteiramente à querida Camila.


    Ultimamente tenho tido em minha volta uma enormidade de mulheres apaixonadas e sofrendo por isso. Me parece que todas as minhas amigas resolveram tomar uma garrafa de poção do amor e agora a maioria está de ressaca. Como não participei desse brinde bizarro, fui promovida a consultora sentimental do grupo e já penso seriamente em mandar artigos para a revista Marie Claire.

    O problema é que a cada vez que uma amiga chora, eu sofro junto, não por ser a rainha da compaixão, mas porque, acima de tudo, elas me fazem desacreditar em todas as histórias que a Meg Ryan (que acredito ser uma psicopata que quer dominar o mundo, mas isso é assunto para outro dia) até hoje me contou usando tanta persuasão.

    Em uma noite de terapeuta amorosa de boteco, escrevi regras básicas para não se cair em desespero e desrepeitar a si própria. Além disso, essas regras visam impedi-las da grave tendência tipicamente feminina de se tornarem Drama Queens e substituir essa personagem pela de Femme Fatale. São elas:

    1 - Nunca acredite plenamente que a sua felicidade depende de outra pessoa.

    2 - Nunca tente consertar o que você acha que deu errado. O que passou, passou, o que importa é o que está por vir. Acredite, o máximo que pode acontecer quando você tenta consertar alguma coisa, ou tenta seduzir novamente o inseduzível, é você piorar a sua situação, sentir novamente a necessidade de consertar e assim cair num círculo vicioso que pode ser eterno.

    3 - Se estiver sofrendo, chore. Muito. De preferência deitada numa Jacuzzi rodeada de velas com uma garrafa cheia de seu destilado preferido na mão, seu maço de cigarros do lado e ouvindo aquele seu CD de músicas pra ficar triste, com os temas de Titanic e Ghost, que você tem guardado no fundo da sua gaveta de calcinhas. Lembre-se dos momentos lindos que você passou ao lado do ser amado. Lembre-se de que você já chorou por outros (as) antes, jurando que eram os verdadeiros e únicos amores da sua vida e que a sua dor nunca iria passar e no fim passou (tanto que agora você chora por outro(a)). Ria disto. No meio destas memórias tristes e felizes, olhe ao seu redor e veja a vida boa que você tem (principalmente se você tiver mesmo uma Jacuzzi em casa) e quão privilegiada você é comparada a tantas milhões de pessoas que choram por um pão com manteiga.

    4 - Saiba a hora de parar de chorar. Este é um item importante. Ouça o seu bom senso apesar do turbilhão de emoções que estão se passando dentro de você, o seu bom senso sempre dirá quando é o suficiente, ele te alertará para o fato de que você já chorou tudo o que tinha que chorar e que agora é hora de se reerguer. Prometa, depois disso, não chorar nunca mais por essa pessoa (não se preocupe, você provavelmente vai quebrar a promessa).

    5 - Passe maquiagem, coloque uma roupa linda que você comprou porque achou que estava merecendo, já que estava sofrendo tanto. Saia de casa assim, se sentindo linda e com a deliciosa sensação de liberdade que há muito você não sentia. Mais rápido do que você imagina, encontrará um (a) moço (a) mais legal do que o (a) anterior.

    6 - Volte para o item 1.

  4. Defenestrar

    Thursday, May 15, 2008

    Todo mundo que me conhece, ou que acompanha este blog, sabe da minha admiração pela palavra defenestrar. Na verdade, ela é tão forte, que já dediquei um texto inteiro só para falar no assunto.

    É uma palavra mágina, na minha opinião.

    E eu fico indignada com o menosprezo com o qual a imprensa brasileira trata deste simpático verbo. Nunca ouvimos. Fátima Bernardes nunca a pronunciou na vida, aposto.

    Agora, o que me deixa puta de verdade, é que, mesmo com a maior oportunidade que os jornalistas tiveram de falar defenestrar. Talvez uma oportunidade única, ímpar, sem precedentes. Mesmo assim, ninguém usou. Ninguém.

  5. Can you hear the drums, Fernando?

    Monday, March 17, 2008

    Tudo bem que colocar ABBA e rock na mesma frase já é uma coisa bizarra. No entanto, não é nada comparado à morte do baterista da banda, encontrado morto no último fim de semana.

    Ola Bunkert, embora não aparecesse entre os quatro membros da banda que ficaram famosos, gravou todas as baterias do ABBA desde o primeiro disco. Foi encontrado morto na casa onde morava sozinho, em Mallorca, Espanha. A polícia suspeita de que ele tenha caído da janela, cortado o pescoço e sangrado até morrer.

    Definitivamente entra pra lista de Mortes Rock'n'Roll.

  6. Pernilongos

    Sunday, March 16, 2008

    Trabalhando em casa. Coça. Coça. Coça.

    Meu pai chega e fica me olhando.

    - O que foi? - pergunta.

    - Pernilongos.

    Ele sai da sala e volta com o spray de inseticida nas mãos. Um minuto depois, agachado embaixo da mesa, dispara o jato mais mixuruca que um spray jamais testemunhou.

    - Com esse tanto de inseticida que você jogou, não vai fazer diferença nenhuma.

    - É que quando a gente joga diretamente no pernilongo, é mais eficaz.

    - Pai, se fosse um pernilongo só, ele já teria morrido de obesidade mórbida.

  7. La cucaracha

    Tuesday, March 11, 2008

    Eu tinha 17 anos quando matei a minha primeira barata. Foi em uma noite de sábado, quando eu estava sozinha em casa me sentindo a adolescente mais infeliz do planeta, assistindo uma comédia romântica e me perguntando o que exatamente ele quis dizer com "não estou em um bom momento para relacionamentos afetivos".

    Enquanto eu chorava no sofá, a mocinha se debulhava na tela me fazendo sentir muito melhor já que alguém no mundo entendia a minha dor, mesmo que só na ficção. A sequência do filme, uma tomada externa, iluminou a minha sala e eu vi o tão temido artrópode que é capaz de sobreviver a acidentes nucleares e fazer mulheres que queimaram sutiã na década de 60 gritarem em desespero por um homem.

    Percebi que tinha duas opções: ou matava o bicho, ou corria para o meu quarto e ficava sem ver o fim do filme. Diante da possibilidade de perder o surpreendente final quando a mocinha beijaria o mocinho ao som de uma música da Natalie Cole, optei pelo confronto direto. Juntei toda a minha coragem, concentrei a raiva que estava sentindo pelo rapaz do "não é você, sou eu" e decidi ir à luta. Claro, não sem calçar meias compridas e botas antes.

    Depois que você mata a primeira barata, as outras que vêm são fichinha. E assim me tornei uma mulher destemida, que não tem medo de barata. A minha coragem, aliás, cresceu ao ponto de conseguir matar lacraias, escorpiões, piolhos-de-cobra, ou qualquer um destes visitantes indesejados que insistem em entrar nas casas de moças indefesas vez ou outra.

    Outro dia, tomando uma cerveja com uma amiga em um copo-sujo de esquina, vi a cara da minha companheira se contorcer de repente. Em seguida, todo o seu corpo acompanhou o rosto e o pavor que tinha tomado conta dela impedia qualquer movimento labial. Perguntei diversas vezes o que estava acontecendo, com medo de ela estar sofrendo um pequeno derrame e, quando ela conseguiu articular qualquer coisa, ouvi duas palavras: "uma barata".

    Assumindo uma pose de Mulher Maravilha, levantei de uma vez, olhei para a minha amiga e, com uma voz confiante, ordenei para que ela não se afligisse. Olhei tudo ao meu redor, em busca do inimigo e vi que o garçom do bar, um rapaz muito simpático, se aproximava. Ele, com um ar de Super-Homem, chegou correndo com a sua vassoura para salvar as donzelas em perigo e também a reputação do seu bar, que, apesar de copo-sujo, é muito limpinho. Fiquei em posição de ataque, supondo que formaríamos uma Liga da Justiça, até que o garçom fez um gesto pedindo que me afastasse, como quem diz "eu cuido disso".

    A barata correu para um lado. Correu para o outro. Correu pela vida. Em dado momento, depois de várias tentativas frustradas, o Super-Homem, que a esta hora estava mais para Chapolin Colorado, decidiu tomar fôlego. Enquanto ele examinava o terreno e elaborava uma estratégia, a barata passou pertinho da minha mesa e, com um movimento certeiro, aniquilei a ameaça com o meu pé esquerdo.

    A platéia, que a esta hora já era maior do que somente a minha amiga e o dono do bar, aplaudiu em êxtase e, enquanto eu colhia os louros da vitória, vi de relance o rosto do pobre garçom. Se eu tivesse tirado uma peixeira da bolsa e cortado fora as suas vergonhas, teria abalado de forma menos agressiva a sua masculinidade. O rapaz, completamente envergonhado, recolheu-se para o fundo do balcão de onde não saiu mais enquanto estive ali.

    Foi então que eu tive uma revelação: se, na década de sessenta, as mulheres tivessem começado a matar baratas ao invés de queimar sutiãs, provavelmente teriam sido mais bem sucedidas e, mais importante, ajudariam a deixar a cidade mais limpa e gastariam muito menos dinheiro com roupa íntima.

  8. Vinte e três

    Saturday, March 08, 2008

    O meu blog tem uma média de quatro visitar diárias. Quatro. Às vezes o número sobe para cinco, quando eu publico alguma coisa que tem muita busca no google e que me faz ficar com pena das pessoas que caem aqui por acidente e ficam com raiva momentânea de mim.

    A parte boa disso é que, quando o meu contador mostra um número muito elevado de visitas em um dia - tipo dez! - eu sei que alguém, possuidor de um blog, twitter ou webpage muito mais populares do que o meu, decidiu que valia a pena linkar o meu humilde espaço virtual.

    Hoje, ao entrar no meu contador de páginas, me deparo com um surpreendente número de visitantes: 23. Vinte e três. Ciente de que eu não havia postado nenhum vídeo inédito da Paris Hilton fazendo sexo, decidi averiguar o fenômeno e a explicação foi muito lisonjeira.

    Um rapaz, o Alexandre Inagaki, fez a gentileza de me incluir em uma lista do que ele chamou de "(...)mulheres inteligentes, bem-humoradas, sensíveis e/ou saudavelmente sarcásticas(...)". Como não o conheço, achei que o melhor era retribuir a gentileza linkando o blog dele aqui.

  9. See you later, Alligator

    Friday, January 11, 2008

    Quando pequena, meu avô costumava me chamar de jacaré. O apelido teve origem na época em que eu tinha o hábito de deitar no berço enrolada no lençol, de modo que só os meus olhos ficassem para fora, olhando atenta tudo ao meu redor. Eu gosto de pensar que este foi o motivo pelo qual a história que eu vou contar aconteceu.

    Meu avô foi mecânico de aviões da Força Aérea Brasileira. Ser militar na época da ditadura não deve ter sido um trabalho fácil, especialmente para o filho de um italiano com ideais anárquicos e uma espanhola que vinha de uma família de artistas. De qualquer forma, eu acho que o meu avô, sempre bem humorado, tentava ao máximo se divertir, apesar das circunstâncias.

    O trabalho dele consistia em sair consertando as aeronaves que, por algum motivo, haviam estragado antes de voltar para casa, seja em solo brasileiro ou fora dele. Ia para todos estes cantos obscuros do nosso continente atrás de aviões defeituosos e o que havia restado deles, em caso de acidentes. Não era raro, portanto, que algumas vezes a sua profissão o levasse para a floresta amazônica, ou a tantas outras matas que existem por aqui.

    Além disso, meu avô era um amante apaixonado da natureza. Mesmo que algumas vezes a sua piromania traísse o seu amor (e o fazia sair colocando fogo com o seu Zippo antigo), ele era um verdadeiro admirador das coisas da terra. Na casa dele sempre foram criados vários tipos de animais, desde galinhas e codornas até lagartos estranhos. Sem contar, é claro, com os vários cachorros, gatos e papagaios que eram muito bem-vindos ali.

    Quando eu tinha cinco anos, ele partiu para uma viagem ao Pantanal e, na volta, trouxe um animal de estimação um tanto quanto extraordinário. Eu me lembro que, uns dias depois de chegar, ele me convidou para ir no escritório dele. O escritório ficava num tipo de segunda casa atrás da casa principal, depois do jardim. Era onde ele ia para ficar sozinho, ouvindo seus discos de música clássica e fumando seus cigarros feitos a mão com fumo de rolo.

    As crianças não podiam entrar lá dentro nunca, a não ser que tivessem sido previamente convidadas e, por isso, quando ele me pegou pela mão e me levou até lá, eu sabia que deveria ser por algum motivo muito importante. E era. Entramos na sala que ele chamava de oficina e ele me mostrou uma gaiola grande de passarinho. Dentro dela não havia nenhum pássaro, mas sim um réptil. Um filhote de jacaré do papo amarelo. Ele era um pouco maior que uma lagartixa e menor que um calango de jardim e eu não entendia muito bem porque aquilo era incomum mas sabia, pelo jeito que meu avô olhava para ele, que deveria manter segredo.

    O jacaré não durou mais que uma semana. A minha avó, sempre muito tolerante com os hábitos do marido, logo descobriu o indesejado visitante em sua casa e viu-se obrigada a expulsar aquele animal ameaçado de extinção, declarando solenemente o velho e conhecido “ou eu ou ele”. Mesmo assim, fizemos uma pequena cerimônia de despedida, com os primos todos sem entender porque aquele bicho que parecia uma miniatura viva da Cuca teria que ir embora.


    Alguns anos se passaram até o jacaré ser encontrado no parque da Lagoa do Nado, na Pampulha. Foi transferido para o zoológico, onde íamos visitá-lo de vez em quando, e gerou uma grande discussão entre os biólogos que tentavam desesperadamente entender como um bicho raro daqueles foi parar em um parque fechado. Meu avô, na frente da televisão, dava gargalhavas a cada vez que via os especialistas apresentando suas hipóteses.


    O tempo passou, eu cresci, meu avô morreu e o jacaré viveu feliz e enjaulado para sempre. A história foi esquecida, até que, alguns meses atrás, sentada em uma mesa de bar, uma menina, que eu tinha acabado de conhecer, disse:

    - Vocês se lembram de que, há uns anos, um cachorro foi atacado no parque da Lagoa do Nado por um jacaré do papo amarelo?

    Todo mundo lembrava.

    - Então, o cachorro era meu.

    Sorrindo e tentando imaginar o que meu avô teria pensado daquilo, respondi para ela:

    - E o jacaré era meu.

  10. Zoológico

    Saturday, December 01, 2007

    De vez em quando, me dá vontade de ir ao zoológico, visitar os hipopótamos e os flamingos. Semana passada, pensando nisso, decidi convidar o meu irmão, que faz Biologia, para me acompanhar e me proporcionar uma visita mais instrutiva com os seus conhecimentos sobre o reino animal.

    - Danilo, vamos ao zoológico terça-feira?
    - Não se chama mais zoológico, agora chama Fundação Zoobotânica.
    - Irmão, você acha mesmo que eu vou me privar do prazer lúdico de falar a palavra zoológico?

  11. Tantas Palavras

    Friday, November 02, 2007

    Eu sempre tive uma atração por palavras pouco usadas. A última flor do lácio, embora algumas vezes acusada de inculta, nos oferece um leque gigantesco de possibilidades e sons incrivelmente interessantes. Por isso, sempre defendi a utilização de palavras mais variadas no dia a dia. Olhe um instante para o dicionário e tente imaginar o universo de possibilidades que contém nele. Mesmo assim, o hábito, a vida cotidiana e a taxa do dólar, nos fazem ter pouco tempo para explorar novos mundos de palavras desconhecidas, fazendo-nos escravos do lugar-comum.

    Durante a constante busca por expressões diferentes, me deparei com uma classe fascinante delas: as palavras que falam várias coisas de uma só vez. Meu irmão me disse uma vez que é uma ocorrência comum no japonês, mas, como falo apenas duas palavras nessa língua - aprendi que é sempre bom saber pedir licença e agradecer em vários idiomas - não posso confirmar se é verdade. Em todo caso, palavras que descrevem ações com exatidão, costumam me causar mais fascínio do que as outras que precisam de acompanhamento para se fazerem entender.

    Um grande exemplo disso é a boa e velha "defenestrar", que já foi honrada com grandes textos elogiando a sua natureza misteriosa e, ao mesmo tempo, precisa. Como não se apaixonar por uma palavra que, com apenas 11 letras, é capaz de descrever o ato de atirar algo ou alguém pela janela?

    Outra delas é procrastinar - da qual sou mais fã do que deveria - que significa "arrastar com a barriga". Agora, eu pergunto, caro amigo que é atraído pelo mundo das letras (é o mínimo que posso supor, se você chegou até esse ponto do texto), quem foi o espírito de porco que inventou esta expressão? Observe o quão mais distinta uma frase fica se usamos a palavra procrastinar ao invés do grosseiro "empurrar com a barriga", ou do clichê "deixar para amanhã o que se pode fazer hoje".

    Usando apenas aquele simples verbo, a sentença ganha muito mais pompa, muito mais reverência, e faz até com que o ato da procrastinação pareça algo genuinamente importante. Imagine se falo com a minha chefe: "minha cara, creio que hoje procrastinarei o trabalho até onde puder". É capaz de ela me dar um aumento!

    Em inglês, também já observei várias palavras com o mesmo poder. De todas, "elope" é a minha preferida. Não sei se pelo poder romântico que ela evoca, ou se pelo quê de aventuresco que a imagem de dois amantes fugindo com o propósito de se casar, mas acredito que ela é capaz de provocar suspiros no mais cínico dos corações. Vislumbro que, num futuro próximo, quando inventarem um dicionário onde cada palavra tiver direito à sua própria trilha sonora, "elope" virá acompanhada de “The wonder of you”, ou qualquer outra canção melodramática da fase Las Vegas do Elvis.

    Aliás, nem é necessário ir tão longe para encontrar expressões que contenham significados abrangentes. O nosso bom e velho "oi", palavra simpática e gordinha que, embora muitas vezes seja subestimada e lançada cruelmente ao campo da informalidade, também possui o poder de dizer muito. Oi pode significar "como está, velho amigo, que saudade!", ou "perdão, não ouvi o que você disse" e até mesmo "olhe para mim, estou aqui deste lado do salão".

    Mesmo assim, embora eu saiba compreender o valor do "oi", acredito que até mesmo ele pode ser substituído por outras palavras mais interessantes. Naturalmente, não é do meu desejo vilipendiar o "oi", muito menos incentivar a prática da tautologia e menos ainda de incitar o aparecimento de Odoricos Paraguaçus. O que proponho ao leitor é simplesmente praticar a diversidade, buscar outras alternativas. Afinal, ampliar o vocabulário é a melhor maneira de encomiar a língua portuguesa e é só variando o uso de palavras como o "oi" que seremos capazes de reconhecer seu verdadeiro valor.

    Por que, por exemplo, não trocamos o oi pelo tin-tin? Ao menos em ambientes boêmios, faria muito sentido. Porque o tin-tin é reservado apenas para o brinde? Imagine que agradável seria chegar no Café com Letras e ser saudado pelo garçom com um belo "Tin-tin"? É praticamente um convite para a felicidade, para a celebração.

    Os franceses mesmo não dizem oi. Nunca. Por outro lado, usam bonjour para qualquer coisa, a qualquer hora do dia. Agora, querido leitor, vá tentar falar bom dia pelas ruas! Será obrigado a ouvir a cretina reprimenda: "bem, já é boa tarde, não?", acompanhada pelo detestável gesto de levar o indicador ao relógio de pulso.

    Este tipo de gente, que insiste em se confrontar com o cidadão honrado que luta diariamente pelo direito das expressões abandonadas, é aquele mesmo que chega no almoço de domingo na casa do Tio Paulo e grita: "é pavê ou pa comê?", que adota todas as expressões usadas pelo núcleo pobre da novela das oito, enfim, é uma pessoa que passa a vida empurrando tudo com a barriga.

    Por isto, venho aqui fazer um convite para todos que chegaram ao final desta longa apologia: defenestre! Procrastine! E faça valer aqueles vários reais gastos com o seu Houaiss.

  12. Peixinho Dourado

    Monday, October 08, 2007

    O texto abaixo é o publicado no livro do Grupo Galpão, como que havia contado alguns post atrás. No livro, o título foi alterado e uma frase foi cortada. Aqui, coloco a versão originial do texto.


    Eu sempre tive sérios problemas com a fisionomia das pessoas. Não é que minha memória seja ruim. Ao contrário, guardo de cor os telefones dos meus amigos e vários outros números de conhecidos que precisei ligar uma ou duas vezes na vida, sei CPF, identidade, título de eleitor e todos esses dígitos inúteis de se memorizar, me lembro de casos e histórias contadas por amigos anos atrás e datas de aniversário de gente que eu nem tenho mais contato. No entanto, quando se trata de um rosto - bonito ou feio - que aparece na minha frente, tudo parece mais difícil e sempre leva um certo tempo para ser processado pela minha truculenta memória, que insiste em me trazer a luz somente quando a pessoa lembrada já está me dando as costas.

    Uma vez lembrado de onde veio um rosto, tudo me vem facilmente: a situação em que conheci a pessoa, uma eventual discussão numa mesa de bar sobre um assunto qualquer, casos contados por ela, se eu gostei ou não dela à primeira vista e os motivos da minha empatia. Acontece que todas estas informações sobre alguém são simplesmente inúteis se o empurrão inicial não é dado, ou seja, se o rosto não aparece associado a alguma situação ou conversa na minha cabeça.

    O grande problema é que as pessoas tendem a interpretar a minha falha de memória visual como um tipo de falta de consideração ou educação e muitas já ficaram ofendidas por não terem sido recordadas. Por este motivo, me vejo sempre dependente do auxílio de amigos e familiares que, eventualmente, me socorrem nas situações delicadas da vida social. Obviamente, tudo se complica com os meus seis graus de miopia que, mesmo corrigidos pelas lentes, não facilitam muito o processo todo. Portanto, ciente da minha deficiência, decidi que quando estou navegando sozinha pelo mar de rostos-interrogações, o melhor mesmo é acenar para todas as pessoas que me cumprimentam na rua, até mesmo para aquelas que eu tenho quase certeza de que estão, na verdade, direcionando o aceno para alguém que está atrás de mim, ou as que estão simplesmente agitando os braços no ar dando a impressão de um tchau. Conclui, depois de muita reflexão, que é melhor passar a vergonha de um aceno no vácuo do que criar um inimigo.

    Além disso, aprendi também que uma boa idéia é arriscar um palpite, tendo consciência, é claro, dos riscos que se corre ao fazer isto. Semana passada, por exemplo, estava dirigindo tranquila perto do bairro onde moro quando vi Isabel, uma vizinha muito simpática que, além de tudo, é filha do melhor amigo do meu pai.

    Ao que parecia, Isabel estava caminhando em direção à sua casa e eu, possuidora de uma alma que deseja alcançar os céus um dia, fiz o que qualquer bom cristão faria e parei imediatamente o carro para oferecer uma carona para a minha querida vizinha, afinal de contas, por menor que seja a distância, qualquer um que já andou em Belo Horizonte sabe que a falta de visão de Aarão Reis e sua turma resultou em um eterno martírio para os pedestres.

    Muito animada, acenei entusiasticamente para Isabel, encostei o carro e abri a porta enquanto a esperava caminhar até o meu carro. Logo que ela entrou, cumprimentei com um beijo e já tratei de engatar uma conversa rápida, daquelas típicas de ter com alguém quando se dá ou recebe carona:

    - Oi, Isabel, tá boa? Nossa, ia ser uma caminhada longa até a sua casa, hein! Já está de férias da faculdade?

    - Sim, estou.

    - Ai, que ótimo. Eu tive que ir agora lá na PUC, acredita? Peguei prova especial com uma professora super chata, que me fez ler o livro mais insuportável que já li na vida. Você sabe, esse povo parece que sente um prazer íntimo em torturar a gente. Era um livro daqueles sobre técnicas de como melhorar a sua marca e ser um empreendedor de sucesso, sabe? Pior é que eu ainda tive que fazer um resumo no negócio.

    - Sei... – e deu uma risadinha burocrática.

    - Seus pais estão bem? - perguntei por que minha mãe tinha comentado na semana anterior que eles estavam morando na Itália.

    - Sim, estão ótimos.

    - Nossa, devem estar adorando morar lá, eu tenho um amigo morando em Bolonha e está super feliz lá. E você e a sua irmã? Estão se virando bem aqui? Está tudo bem na sua casa?

    - Sim, tudo ótimo.

    - Que bom. Vocês não estão brigando muito não, né? Ah, nem devem se encontrar muito, né? Eu sei que a Luísa é bem ocupada por causa da faculdade de medicina.

    - É, ela quase não fica em casa então a gente praticamente não se vê. Olha só, pode me deixar aqui que eu vou na casa de uma amiga aqui na rua de cima.

    - Imagina, Isabel! Eu te levo lá na casa da sua amiga! De carro é tudo mais fácil e esse morro aí não é nada fácil de subir debaixo desse sol, que eu sei. É só me indicar o caminho.

    - Então vira aqui à esquerda.

    Depois disso, parei de falar porque Isabel não parecia estar com muita vontade de jogar conversa fora.

    - Pronto, é aqui.

    - Essa aqui?

    - É.

    - Então tchau, Isabel, dá um beijo na Luísa por mim.

    - Pode deixar.

    E foi só na hora que eu olhei de dentro do carro para a Isabel parada na frente da tal casa que eu me dei conta de que tinha dado carona para uma estranha.


  13. Convite

    Tuesday, October 02, 2007

    Queridos (e pacientes) leitores deste blog,

    Há mais ou menos um ano, eu enviei uma história para a campanha "Conte sua história", do Grupo Galpão. Depois disso, eles montaram o espetáculo "Pequenos Milagres" que estreou este ano e, claro, não incluía a minha.

    Pois bem, agora eles resolveram publicar um livro com as melhores histórias recolhidas durante a campanha e a minha é uma delas. O livro vai ser lançado na livraria Travessa no próximo sábado, dia 06, às dez da manhã. Naturalmente, estão todos convidados.

  14. Au revoir, Madame Sion

    Wednesday, September 26, 2007

    Sempre que chega esta época do ano, me lembro de Madame Sion. Já publiquei este texto aqui no blog e o apaguei, junto com a limpa que eu fiz no início deste ano. Republico em honra ao aniversário de morte dela, que, embora eu não saiba datar precisamente, faço questão de lembrar todos os anos.


    A primeira vez que a vi foi numa tarde de sexta-feira, enquanto eu experimentava maneiras de se carregar uma bandeja, tentando encontrar a forma mais confortável e, ao mesmo tempo, mais graciosa de lidar com aquele objeto redondo que, pela falta de prática, me parecia tão hostil.

    "Ela chegou." Sussurrou, assustada, a copeira - e lembro que achei estranho o seu tom de voz, já que, normalmente, a aterrorizada era eu.

    Ela chegava sempre pela porta lateral, distribuía boas tardes como uma rainha que acena para os seus súditos. Tinha no olhar algo de reprovação para o mundo de hoje, parecia querer nos ensinar a viver, como ela havia vivido. E mostrava isto preservando os modos e hábitos de uma época em que as pessoas andavam mais devagar e se esforçavam mais para ouvir o que os outros tinham a dizer, trazendo consigo a lembrança de que as coisas em seu tempo foram diferentes e que, apesar de tudo, ainda existe lugar para a delicadeza.

    Aos poucos fui aprendendo a sua dançaa e depois de alguns dias já praticávamos um pas-de-deux silencioso (guiado magistralmente por ela) como bailarinas que guardam a
    confiança e cumplicidade de anos de convivência. O ato começava perto de cinco horas. Arrastar a mesa seis, reposicionar o abajour, afastar as cadeiras. Era meu dever preparar o palco. Eu esperava o tempo necessário para que ela se acomodasse na mesa, levava o cardápio e, embora já soubesse de cor, aguardava atenciosa o pedido: “Um Earl Grey, por favor."

    Sempre devidamente maquiada e vestida, levava a tiracolo o Le Monde, ou alguma publicação francesa, para ler enquanto eu preparava a sua bebida. Garrafa térmica, xícara, leite, sachê de chá e o açúcar que, apesar de saber que ela não usaria, eu levava assim mesmo, só para vê-la afastando o recipiente e me lançando um olhar de doce reprovação como quem diz "eu não adoço o meu chá, você ainda não aprendeu?". Era a minha pequena intervenção naquele ballet que ela havia inventado e dançado com tanta gente antes de mim.

    Terminado o chá, ela se levantava para ir ao banheiro, e era justamente nesse minuto que o simpático e fiel motorista surgia em cena, me deixando sempre impressionada pelo timing perfeito. Mais do que habituado ao ritual e preservando um bom humor invejável, como se fizesse aquilo tudo pela primeira vez, ele esperava paciente o retorno da madame na mesma porta lateral por onde ela havia entrado. Estedia-lhe o braço e a acompanhava até o carro.

    E nos despedíamos certas de que tudo ia se repetir no dia seguinte, exatamente como havia sido feito no dia anterior e no dia antes desse, estando eu lá ou não, porque ela era a senhora daquele espetáculo. E, mesmo nunca tendo trocado uma palavra além do estritamente necessário com ela, sempre vou sentir saudade do chá das cinco com Madame Sion.

  15. Watching the wheels

    Tuesday, September 25, 2007

    Poucos meses atrás, quando completei 25 anos, minha melhor amiga começou um discurso estranho que tratava de cremes. Minha melhor amiga adora cremes. Eu estava ocupada no volante e quando entendi o que ela estava falando, percebi, chocada, que tratava-se do que eu descreveria como nada menos que uma ode ao anti-rugas.

    Eu nunca acreditei nos milagres que prometem estes cremes. Mais ainda, nunca me preocupei verdadeiramente com rugas. As únicas rugas que se passavam pela minha cabeça eram aquelas proporcionadas pela água da banheira e que eu sempre fiz questão que aparecessem.

    Na mesma semana, a minha cunhada veio conversar comigo sobre os tais cremes. Muito prestativa, colocou-se à disposição para uma consultoria sobre o assunto. Disse que poderia me indicar as melhores marcas, com preços mais acessíveis e onde comprá-los. Cordialmente agradeci e repeti o que eu disse para a minha melhor amiga: que não estava interessada. Persistente, ela ainda tentou uma abordagem um pouco mais agressiva, estrategicamente esquecendo um frasco com um resto de Renew no meu banheiro.

    Hoje, a minha mãe vem me falar cheia de sorrisos: "Comprei um anti-rugas para você. Estava custando a metade do preço."

    Ok. Vocês venceram.

  16. George Bernard

    Monday, September 24, 2007

    Eu não sou muito de ficar decorando frases e citações ditas por figuras geniais. No entanto, tem algumas que simplesmente entraram na minha cabeça ao longo da vida, sem que eu fizesse muito esforço para isso.

    Preocupada com a qualidade intelectual deste blog, decidi brindar os leitores com um pouco de genialidade e procurar uma das minhas frases preferidas, que foi dita por um dos meus caras preferidos. Busquei rapidamente no google e caí num site de citações e, indecisa, resolvi que o melhor mesmo (para o bem de vocês) seria que eu linkasse o site aqui. Escolham o pedaço de sabedoria que preferirem.

    A propósito, a frase que eu sei de cor é essa aqui:

    "The reasonable man adapts himself to the world; the unreasonable one persists in trying to adapt the world to himself. Therefore all progress depends on the unreasonable man."


  17. My blog is worth $1,129.08.
    How much is your blog worth?


  18. Surreal.

    http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u330995.shtml

  19. Gmail

    Friday, September 21, 2007

    Desde o advento do Gmail sofro de um problema que se repete pelo menos uma vez por semana.

    Fico o dia todo dando refresh na página: algumas vezes ansiosa por uma resposta, outras só por hábito. Decido mandar um email para mim mesma para armazenar alguma informação importante.

    Distraio, entro no MSN, procuro coisas no google, volto pro gmail. Meu coração acelera quando vejo que tenho uma nova mensagem. "You've got mail", me lembra a comédia romântica.

    Clico em Inbox e dou de cara com o email que mandei pra mim mesma.

  20. O Anima Mundi finalmente veio para a nossa cidade.

    Aconselho muito que os interessados compareçam ao evento. Só ontem, assisti 23 curtas e nem fiquei cansada depois de passar o dia no cinema.

    Escrevi um texto comentando sobre o Festival no Alto-Falante.